Master of Wine: uma maratona acadêmica rumo ao olimpo
Candidatos ao título acadêmico de maior prestígio no mundo podem levar até uma década e investir de US$ 50 mil a 80 mil. O Brasil tem apenas um MW e, recentemente, recebeu sua primeira imersão oficial com foco no recrutamento de novos talentos

**> Marina Gayan (MW), Thiago Mendes (Enocultura), Karene Vilela (Bacalhoa) e Demetri Walters (MW) recepcionam em evento os alunos do primeiro curso introdutório do Masters of Wine no Brasil
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O Master of Wine (MW) é a maior honraria acadêmica do universo do vinho. Com apenas 421 detentores do título globalmente, a lista conta com apenas um brasileiro: Dirceu Vianna Júnior. Fundado em 1953, em Londres, o Institute of Masters of Wine (IMW) nasceu para formalizar a qualificação no comércio britânico; hoje, é a autoridade máxima global em excelência vitivinícola. Apesar da representação modesta, o Brasil entrou na nota da instituição nos dias 9 e 10 de abril de 2026. Através de uma iniciativa da Eno Cultura, principal escola de vinhos do Brasil e uma das mais conceituadas da América Latina, São Paulo recebeu a primeira edição do curso introdutório ao IMW realizada em solo brasileiro. O evento buscou estimular o ingresso de profissionais locais no programa e contou com um corpo docente de peso: Marina Gayan MW — a primeira pessoa da América Latina a conquistar o título (em 2003) — e Demetri Walters MW.

A vinda dos mestres reforça o interesse da instituição no país. Segundo Walters, a intenção é clara: "Gostaríamos muito de contar com mais representantes do Brasil em nosso programa de estudos. É um mercado fascinante e em crescimento, que merece maior representatividade em nossa instituição".
**Exclusividade e Terroir: A Visita à Casa Tés **Além da carga técnica, o grupo de 20 alunos — formado por sommeliers e estudantes de WSET Diploma — teve o privilégio de uma visita técnica à Casa Tés, no Vale da Grama, no dia 11 de abril. O proprietário Pedro Testa abriu as portas de seu projeto de vinhos de inverno para o grupo, um gesto de grande valor acadêmico, visto que a propriedade não é aberta ao enoturismo convencional. O projeto, que conta com consultoria de nomes como Xavier Choné e Pierre Lurton, serviu de laboratório prático para os candidatos.
**Trajetória repleta de desafios **O desafio para se tornar um MW é uma maratona em todos os sentidos. Segundo apuração do Wine Trade News, o investimento financeiro varia entre U$ 50 mil e 80 mil, além de grande entrega emocional, dado o nível de dedicação exigido e o extremo rigor das provas ao longo de três estágios. Boa parte desses custos advém da necessidade de degustar vinhos de diversas tipicidades do mundo inteiro. Viagens e seminários em regiões da Europa e do Novo Mundo também são obrigatórios, com custos de passagens, hospedagem e alimentação por conta do aluno. A maioria dos que chega ao final do programa leva de cinco a sete anos, mas muitos superam uma década de esforços, isso quando não desistem pelo caminho, o que é comum.
**O temido Stage 2 **O segundo estágio é famoso por ser um dos exames mais difíceis do mundo. Os alunos devem escrever cinco dissertações em língua inglesa, cobrindo desde viticultura até questões contemporâneas (como sustentabilidade e mercado), além de enfrentar três exames de degustação às cegas com 12 vinhos cada (36 no total). O candidato precisa identificar origem, casta, método de produção e qualidade comercial. As taxas de aprovação completa (teórica e prática) variam entre 10% e 15% na primeira tentativa, com apenas 25% dos candidatos avançando no todo. Repetidas reprovações no Stage 2 podem, inclusive, resultar em um convite para o aluno se retirar do programa. No último balanço oficial, apenas quatro candidatos completaram a jornada em 2026, entre elas a primeira mulher italiana a conquistar a honraria, Cristina Mercuri, que dá aula para os alunos da Enocultura no Diploma Wset e vem sendo celebrada em toda Itália pelo feito. Atualmente, segundo o próprio Instituto MW, há 320 candidatos ativos de 46 nacionalidades. Uma curiosidade estatística é que o título costuma ser contabilizado para o país onde o MW reside. O brasileiro Dirceu Vianna Júnior, radicado em Londres, é registrado como um MW britânico. Da mesma forma, a inglesa Amanda Barnes, que obteve o título no ano passado, é associada à Argentina, onde desenvolveu a pesquisa para o seu livro South American Wine Guide.
**As brasileiras na jornada **Atualmente, quatro brasileiras enfrentam essa jornada: Cynthia Richter Ribeiro (Grape Skills, Alemanha), Karene Vilela (Bacalhôa, Brasil) e Alessandra Esteves (Florida Wine Academy, EUA) — todas no Stage 2 — além de Andrea Berthaud, (criadora do Red Submarine), que iniciou o programa no final do ano passado. Cynthia Richter Ribeiro reside em Heidelberg, na Alemanha, onde comanda a escola Grape Skills enquanto se prepara para os exames do Stage 2. Ela se orgulha de ter os mais altos índices de aprovação entre escolas alemãs para o nível 3 da WSET. Para ela, o prestígio compensa o sacrifício de tempo. “Ser estudante de MW me traz um grande reconhecimento na Alemanha. Muitos alunos procuram minha escola justamente pelo peso que o programa proporciona. Isso impulsiona os negócios e os contatos com o mercado”, conta Cynthia. Já Karene Vilela, diretora comercial e de marketing da Bacalhôa, prepara-se para as provas de degustação do Stage 2 após ser aprovada na teoria. Ela destaca o desafio adicional para quem estuda morando no Brasil. “É algo que vai muito além do conteúdo acadêmico. Para o brasileiro, a jornada tem uma 'camada extra' de complexidade que envolve logística internacional e a gestão de estresse entre carreira e estudo. Manter diversas frentes de trabalho simultâneas é a realidade necessária para sustentar a formação”, explica.
**O "Custo Brasil" e o retorno técnico **Diferente de um estudante europeu, que pode pegar um trem para um seminário, o brasileiro enfrenta voos internacionais, fuso horário e variações climáticas que impactam o rendimento. “O investimento é extremamente alto, variável e incerto, pois depende da velocidade de aprovação e da necessidade de aclimatação no exterior antes das provas”, afirma Karene. No mercado brasileiro, o reconhecimento de grandes conquistas acadêmicas ainda é tímido. “O retorno não é financeiro imediato, mas sim técnico. Estuda-se não pelo diploma na parede, mas pela 'arma' que o conhecimento proporciona nas negociações e vendas”, pontua a executiva. Segundo ela, o título não é um "bilhete premiado" para um salário maior, mas um diferencial de posicionamento. “O retorno financeiro direto no Brasil é quase nulo. Essa não pode ser a principal motivação.”
Em um contraponto de realidades, Cynthia nota que, na Europa, o reconhecimento é tamanho que grandes players — como produtores e importadoras — chegam a oferecer incentivos para que seus profissionais busquem certificações de alto nível como o WSET e o Master of Wine.
**Tabela de investimentos para a jornada completa **Os custos variam dependendo da região, mas os valores base da instituição são em Libras Esterlinas (£). Taxas de Inscrição e Curso (Anuais): Entre £4.500 e £5.400 por estágio. Exames: As taxas de exame (teoria e prática) giram em torno de £2.500 a £3.000. Custos Invisíveis (O maior peso): Vinhos para Degustação: Alunos de MW precisam degustar vinhos de nível mundial constantemente. Estima-se um gasto de US$ 5.000 a US$ 10.000 por ano em garrafas e amostras. Viagens e Seminários: É obrigatório participar de seminários residenciais em diferentes partes do mundo (Europa, EUA ou Austrália). O custo de passagens, hospedagem e alimentação fica a cargo do aluno. Total Estimado: Uma jornada completa raramente custa menos de US$ 50.000 a US$ 80.000, podendo ultrapassar US$ 100 mil dependendo da disponibilidade pessoal de cada candidato.
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